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Laboratório da Água

Dicas e cuidados no laboratório

O que faz uma análise de água dar resultado confiável começa antes do aparelho: coleta, frasco, prazo, vidraria limpa, reagente padronizado e controle de qualidade. Um guia rápido para quem está na bancada.

Coleta

  • Use o frasco que o laboratório mandar. Cada análise tem o seu: estéril para micro, com ácido para metais, âmbar para orgânicos. Frasco reaproveitado de casa contamina o resultado.
  • Torneira: tire o arejador e o filtro, limpe a boca da torneira e deixe a água correr de 2 a 3 minutos antes de coletar. Exceção: para avaliar chumbo e cobre do encanamento, coleta-se o primeiro jato, depois de a água ficar parada.
  • Poço: bombeie antes até a água sair com temperatura e condutividade estáveis, para coletar água do aquífero e não a parada no tubo.
  • Microbiologia: não toque na parte de dentro da tampa nem na boca do frasco, não lave o frasco e deixe um espaço de ar de uns 2 cm. O tiossulfato no frasco neutraliza o cloro; não jogue fora.
  • Oxigênio dissolvido, DBO e voláteis: encha até transbordar e feche sem deixar bolha.
  • Identifique na hora: ponto de coleta, data, hora, quem coletou, temperatura da água e do ar, cloro residual e pH medidos no local. É a cadeia de custódia que dá valor ao laudo.
  • Transporte: caixa térmica com gelo reciclável, abaixo de 10 °C (micro) ou até 6 °C (físico-químicos), sem congelar e sem a amostra encostar no gelo solto.

Preservação e prazo até a análise

Prazos usuais da tabela 1060 do Standard Methods e do Guia Nacional de Coleta e Preservação de Amostras (CETESB/ANA). Quando o método ou o laboratório pedir outro prazo, vale o deles.

AnáliseFrascoPreservaçãoPrazo
Coliformes, E. coli Estéril, com tiossulfato de sódio se a água for clorada Refrigerar abaixo de 10 °C, sem congelar Até 24 h (o ideal é no mesmo dia)
pH, Cloro residual Plástico ou vidro Nenhuma: medir na hora Imediato (no local da coleta)
Oxigênio dissolvido Frasco de DBO, cheio, sem bolhas Fixar no local (Winkler) ou medir com sonda Imediato; fixado, até 8 h
Turbidez, Cor Plástico ou vidro Refrigerar (≤ 6 °C) no escuro Até 24 h (cor até 48 h)
Nitrato, Nitrito Plástico ou vidro Refrigerar (≤ 6 °C) Até 48 h
Amônia Plástico ou vidro Ácido sulfúrico até pH < 2 e refrigerar Até 28 dias
DBO Plástico ou vidro, cheio Refrigerar (≤ 6 °C) Até 48 h (melhor em 6 h)
DQO Vidro ou plástico Ácido sulfúrico até pH < 2 e refrigerar Até 7 dias
Ferro, Manganês, Chumbo, Dureza Plástico lavado com ácido Ácido nítrico até pH < 2 Até 6 meses (mercúrio, 28 dias)
Fluoreto, Cloreto, Sulfato Plástico (fluoreto não vai em vidro) Nenhuma (sulfato: refrigerar) Até 28 dias
Alcalinidade, Sólidos Plástico ou vidro, cheio Refrigerar (≤ 6 °C) Alcalinidade 14 dias; sólidos 7 dias
Agrotóxicos, Solventes (BTEX) Vidro âmbar com tampa revestida de teflon Refrigerar; solventes sem espaço de ar Extração em até 7 dias; voláteis em até 14 dias

Vidraria e limpeza

  • Rotina: detergente neutro ou alcalino de laboratório, enxágue farto com água da torneira e três enxágues com água destilada ou deionizada.
  • Metais: depois da lavagem, deixe a vidraria e os frascos de plástico de molho em ácido nítrico 10% por algumas horas e enxágue com água ultrapura.
  • Fósforo e fosfato: não use detergente com fosfato. Lave com ácido clorídrico diluído (1:1) e reserve essa vidraria só para fósforo.
  • Amônia e nitrogênio: evite detergente com amônia e mantenha a vidraria longe de frascos de hidróxido de amônio abertos.
  • Vidraria volumétrica (balão, pipeta volumétrica, bureta) não vai à estufa quente: o calor muda a calibração. Deixe secar em temperatura ambiente ou enxágue com a própria solução antes de usar.
  • Ambientar: antes de usar, enxágue a pipeta e a bureta duas ou três vezes com a própria solução que vai medir.
  • Menisco: leia com o olho na altura da marca; para soluções claras, a base do menisco encosta na marca.
  • Cubetas: segure pelas faces foscas, limpe as faces ópticas com papel macio, sem riscos, e coloque sempre na mesma posição. Uma impressão digital já muda a absorbância.

Reagentes e padrões

  • Água do laboratório: use água deionizada ou ultrapura com condutividade conferida todo dia (tipo I para metais traço e cromatografia, tipo II para a rotina).
  • Rótulo completo: nome, concentração, data de preparo, validade, quem preparou e o fator de correção, quando houver.
  • Padronize os titulantes: EDTA, tiossulfato, nitrato de prata, ácido sulfúrico e hidróxido de sódio mudam com o tempo. Padronize contra um padrão primário e use o fator na conta (a calculadora de titulação tem o campo para isso).
  • Padrão primário seco: carbonato de sódio, biftalato de potássio e cloreto de sódio vão à estufa (em geral 105 a 110 °C; carbonato de sódio a 250 a 290 °C) e esfriam no dessecador antes de pesar.
  • Padrões de calibração: prefira material certificado, rastreável. Prepare as soluções de trabalho diluídas no dia, com a calculadora de diluição.
  • Nunca devolva reagente que saiu do frasco, nem coloque pipeta dentro do frasco estoque: transfira uma porção para um béquer.
  • Ficha de segurança: tenha à mão a FDS (antiga FISPQ) de cada reagente, com os riscos, a incompatibilidade e o que fazer em caso de acidente.

Segurança

Sempre o ácido na água, nunca a água no ácido. A diluição libera calor; com a ordem errada, o líquido ferve e espirra.

  • EPI: jaleco de manga longa fechado, óculos de segurança e luva nitrílica. Sapato fechado e cabelo preso.
  • Capela: ácidos concentrados, digestão de DQO, solventes e qualquer reagente que solte vapor.
  • DQO: os tubos usam dicromato de potássio (cromo hexavalente), sulfato de prata e sulfato de mercúrio, e saem do digestor a 150 °C. Use luva térmica, deixe esfriar na grade e trate o resíduo como perigoso.
  • Pipetagem: sempre com pera ou pipetador automático; nunca com a boca.
  • Microbiologia: trabalhe perto da chama ou em cabine de segurança, desinfete a bancada antes e depois e esterilize em autoclave tudo o que teve contato com cultura.
  • Emergência: lava-olhos e chuveiro testados toda semana, extintor no prazo e telefone de emergência à vista. Respingo nos olhos: 15 minutos de água corrente.
  • Não coma, não beba e não guarde alimento na geladeira de amostras e reagentes.

Controle de qualidade

  • Branco de reagentes em todo lote: mostra contaminação da água, dos reagentes ou da vidraria. Para coletas em campo, um branco de campo também.
  • Duplicata: analise de novo ao menos uma em cada dez amostras e acompanhe a diferença entre as duas.
  • Padrão de verificação: um padrão de fonte diferente da curva, lido no começo e no fim da corrida. Costuma valer dentro de ±10% do valor esperado.
  • Amostra fortificada: some uma quantidade conhecida do analito a uma amostra e veja quanto volta (recuperação usual de 80 a 120%). Mostra interferência da matriz.
  • Curva de calibração: pelo menos cinco pontos que cubram a faixa das amostras, R² de 0,995 ou mais, e nada de extrapolar. A calculadora de curva faz a reta e avisa quando a leitura sai da faixa.
  • Aparelhos: pHmetro calibrado no dia com dois ou três tampões que cubram a faixa (pH 4, 7 e 10), condutivímetro com padrão de KCl (1.413 µS/cm), turbidímetro com padrões de formazina, balança verificada com pesos padrão, termômetros e estufas conferidos.
  • Carta controle: anote o resultado do padrão de verificação a cada corrida. A tendência aparece antes de o resultado sair do limite.
  • Laboratórios com acreditação na ABNT NBR ISO/IEC 17025 pelo Inmetro (Cgcre) seguem esses controles por norma.

Registro e laudo

  • Unidade e forma: diga sempre como o resultado é expresso: nitrato como N ou como NO₃⁻, dureza e alcalinidade como CaCO₃, fosfato como P ou como PO₄³⁻. A conversão de N e P ajuda.
  • Abaixo do limite de quantificação é "< LQ" com o valor do LQ (ex.: < 0,01 mg/L), nunca "zero" ou "ausente".
  • Algarismos significativos coerentes com o método: uma balança de 0,1 mg e uma pipeta de 1 mL não dão resultado com seis casas.
  • Método e incerteza: cite a referência do método (Standard Methods, ABNT, EPA) e, quando houver, a incerteza de medição.
  • Datas: coleta, recebimento e análise. Resultado de análise feita fora do prazo deve vir com ressalva.
  • Legislação certa para cada água: Portaria GM/MS 888/2021 para água de beber, Resolução CONAMA 357/2005 para rios e lagos, CONAMA 430/2011 para lançamento de efluentes, CONAMA 274/2000 para balneabilidade e CONAMA 396/2008 para água subterrânea.

Descarte de resíduos

  • Separe na origem e rotule cada frasco de resíduo com o conteúdo e a data. Nunca misture resíduos incompatíveis (ácido com cianeto ou sulfeto, oxidante com solvente).
  • Resíduo de DQO (cromo, prata e mercúrio) vai em frasco próprio para empresa licenciada. Não vai para a pia nem depois de neutralizado.
  • Ácidos e bases diluídos e sem metais podem ser neutralizados (pH entre 6 e 9) e descartados com muita água, se a licença e a companhia de saneamento local permitirem.
  • Solventes: clorados (diclorometano, clorofórmio) separados dos não clorados (hexano, acetona).
  • Microbiologia: placas, meios e frascos com cultura passam pela autoclave antes do descarte.
  • Mantenha o comprovante de destinação (MTR) dos resíduos perigosos enviados.

Este guia reúne boas práticas gerais. O procedimento validado do laboratório, o método usado e as normas de segurança da instituição sempre prevalecem.

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